Em 2026, o Brasil vai às urnas. Em 2056, uma criança que nasce agora terá 30 anos. Entre essas duas datas cabem sua formação, suas primeiras experiências de trabalho e, talvez, uma empresa que ninguém imaginou ainda. É nesse intervalo que eleições, tecnologia e empreendedorismo se encontram: nas condições que permitem aprender, produzir e transformar conhecimento em oportunidades, sem perder de vista os custos sociais e ambientais.
O primeiro turno será em 4 de outubro de 2026, com eventual segundo turno em 25 de outubro, conforme o calendário do Tribunal Superior Eleitoral. A eleição não determina sozinha o que acontecerá nas próximas três décadas. O horizonte de 2056 serve aqui para outra coisa: ampliar as perguntas sem fingir que alguém consegue prever todas as respostas.
Trinta anos não são apenas uma licença poética
O longo prazo apareceu numa notícia desta semana. Em 30 de setembro, a Empresa de Pesquisa Energética (EPE) informou a aprovação do Plano Nacional de Energia 2055, com três cenários para o sistema energético brasileiro. A própria instituição esclarece que esses cenários não são previsões nem metas oficiais do governo, mas trajetórias possíveis para examinar alternativas. Anúncio da EPE sobre o PNE 2055.
A distinção ajuda a ler qualquer conversa sobre futuro. Uma projeção depende de hipóteses; um compromisso depende de execução; um resultado precisa ser observado. Colocar os três na mesma frase pode produzir uma promessa que os dados não fizeram.
Imaginar o Brasil de 2056 não exige adivinhar qual aplicativo será popular. Permite perguntar quais capacidades continuariam importantes mesmo se os produtos, as empresas e as tecnologias mudassem completamente. Esse é o exercício proposto neste texto, não uma previsão eleitoral nem uma recomendação de voto.
A inteligência artificial já chegou. O uso não é uniforme.
Segundo a TIC Domicílios 2025, 32% dos usuários de internet declararam utilizar ferramentas de inteligência artificial generativa. O indicador variou conforme a escolaridade: 17% entre usuários com ensino fundamental e 59% entre aqueles com ensino superior. Os percentuais se referem aos usuários de internet pesquisados, não à população inteira. Indicador de uso de IA generativa do Cetic.br.
Essas diferenças não explicam, sozinhas, suas causas. Também não demonstram que uma política específica produziria determinado resultado. Elas estabelecem um ponto de partida para perguntas sobre acesso, formação e uso efetivo.
Em uma discussão sobre tecnologia, é possível examinar quem será atendido, que competências se pretende desenvolver e como o aprendizado será acompanhado. Disponibilizar uma ferramenta e demonstrar que as pessoas conseguem utilizá-la para resolver um problema são resultados diferentes.
Para quem empreende, essa distinção também merece atenção. Num exemplo hipotético, uma plataforma pode funcionar perfeitamente e ainda exigir um equipamento, uma conexão ou um repertório que seu público não possui. A inovação existe na demonstração; a investigação de acesso ainda está por fazer.
Desenvolvimento sustentável também passa pela infraestrutura
O Balanço Energético Nacional 2026, com dados de 2025, registra 86,8% de fontes renováveis na matriz elétrica brasileira. A informação diz respeito à eletricidade, não a toda a energia consumida no país. O próprio relatório apresenta separadamente os diferentes recortes. Relatório Síntese do BEN 2026.
Esse dado contextualiza a conversa sobre infraestrutura digital. Não permite concluir, isoladamente, quanto custa operar um centro de dados, qual é seu impacto local ou se um projeto específico tem fornecimento suficiente. Para isso, são necessárias informações sobre a instalação e sua operação.
Uma análise de desenvolvimento sustentável pode considerar conjuntamente formação profissional, atividade econômica, consumo de recursos e distribuição de benefícios. Há escolhas de prazo, financiamento e responsabilidade envolvidas. Duas propostas podem buscar um objetivo semelhante por caminhos diferentes, com custos e riscos distintos.
Em vez de presumir qual caminho é superior, o leitor pode investigar as condições de cada um: quais recursos serão necessários, quem assume os custos, quais efeitos são esperados e o que será medido para verificar se aconteceram. A resposta não cabe apenas no nome da tecnologia.
Como ler propostas sem terceirizar o julgamento
Para consultar o que foi efetivamente apresentado, o DivulgaCandContas reúne dados sobre candidaturas, declarações de bens, receitas e despesas de campanha e propostas de governo, quando aplicável. O Tribunal Superior Eleitoral também mantém bases abertas e estatísticas para consulta. Orientações do TSE sobre informações de candidaturas.
A partir dos documentos, algumas perguntas ajudam a organizar a leitura: qual problema está descrito? A quem ele afeta? Qual instrumento foi proposto? Quem teria competência para executá-lo? Que prazo, recursos e critérios de acompanhamento aparecem? O que não está explicado?
São perguntas para compreender, não uma fórmula para dar notas ou escolher candidatos automaticamente. Ausência de detalhe num documento pode exigir esclarecimento; um número anunciado pode exigir a consulta à metodologia. O importante é distinguir o conteúdo disponível da interpretação que fazemos dele.
Pessoas podem ler as mesmas informações e atribuir pesos diferentes a emprego, educação, liberdade, segurança, meio ambiente e outras questões. Os dados ajudam a examinar afirmações; não escolhem valores em nome de ninguém.
A informação que convence também precisa poder ser conferida
O TSE reformulou a página Fato ou Boato para as eleições de 2026. O serviço reúne checagens e materiais educativos. Entre as orientações estão verificar a origem, ler o conteúdo completo e observar o endereço da publicação antes de compartilhar. Página Fato ou Boato e orientações de checagem.
Esse cuidado vale inclusive quando a mensagem confirma o que já pensamos. Para uma estatística, convém recuperar período, população e unidade de medida. Para uma declaração, a gravação ou o documento completo. Quando a evidência não é suficiente, a incerteza pode continuar sendo incerteza.
Votar é participar da escolha de representantes. Formar a própria compreensão sobre essa escolha envolve também reconhecer o que sabemos, o que apenas supomos e o que ainda precisamos perguntar. Nenhum texto de blog deveria substituir essa decisão pessoal.
O que a CRIIA traz para essa conversa
A proposta da CRIIA combina imaginação, pesquisa e construção. Aplicada a este debate, essa disposição significa abrir perguntas, observar situações concretas e preservar a possibilidade de aprender. Não significa transformar uma tese empresarial em orientação partidária.
Uma criança nascida em 2026 pode chegar a 2056 trabalhando em algo que hoje não sabemos nomear. Esse exercício não exige concordância sobre todas as escolhas do presente. Abre espaço para conversar sobre as condições em que pessoas diferentes poderão estudar, trabalhar, empreender e criar.
A participação não precisa terminar na votação, assim como a curiosidade não precisa terminar numa convicção. Continuar perguntando é compatível com ter uma posição. Rever uma informação é compatível com pensar por conta própria.
Seja qual for seu voto, que ele represente sua linha de raciocínio, mas que nunca impeça sua CRIIA-ÇÃO.
Fontes
- Eleições 2026: confira as principais datas do calendário eleitoral
- Plano Nacional de Energia 2055 é aprovado e aponta caminhos para um sistema energético mais limpo, resiliente e competitivo
- M1 - USUÁRIOS DE INTERNET, POR USO DE FERRAMENTAS DE INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL (IA) GENERATIVA
- EPE publica o Relatório Síntese do Balanço Energético Nacional 2026
- Faltam 20 dias: onde consultar informações sobre candidatas e candidatos
- Fato ou Boato: nova página para Eleições 2026 amplia ferramentas de combate à desinformação
- CRIA — Toda ideia tem uma vida