A próxima oportunidade em inteligência artificial pode estar numa pergunta pouco glamourosa: o que o seu produto consegue fazer quando fica sem internet? Executar modelos no próprio aparelho permite desenhar funções que não dependam de consultar um servidor a cada interação. Para startups, isso abre uma investigação sobre continuidade do trabalho, custo e acesso — não apenas uma disputa para colocar mais processamento dentro de uma máquina.
Em 28 de setembro de 2026, a SiMa.ai anunciou uma rodada Série C de US$ 150 milhões, chegando a US$ 500 milhões em capital captado ao longo de sua trajetória e a uma avaliação de US$ 1,45 bilhão. São medidas diferentes: dinheiro desta rodada, captação acumulada e valor atribuído à empresa. A companhia desenvolve hardware e software para aplicações de IA em equipamentos físicos, como robôs e veículos. Anúncio da Série C da SiMa.ai.
A notícia não significa que toda startup deva começar a fabricar chips. Nossa leitura é que ela convida a examinar outro lugar para criar produtos: o ponto em que a tecnologia precisa funcionar, mesmo quando as condições de conexão não colaboram.
O que significa rodar IA no próprio dispositivo
Na execução local, o aparelho utiliza um modelo para processar informações sem enviar necessariamente cada solicitação a um servidor remoto. Isso é diferente de treinar um modelo do zero. A proposta do Google AI Edge, por exemplo, inclui ferramentas para executar modelos em Android, iOS, navegadores e dispositivos embarcados. Documentação do Google AI Edge.
A capacidade depende do modelo, do equipamento e do desenho da aplicação. Rodar uma função localmente não significa que o produto inteiro dispense conexão. Instalação, atualizações, consultas externas ou sincronização podem continuar precisando da rede.
Essa distinção é importante porque “funciona offline” deveria descrever exatamente o que continua disponível. Reconhecer um objeto numa foto, consultar um catálogo baixado e confirmar um pedido num sistema externo são tarefas diferentes. A primeira capacidade não concede automaticamente as outras.
Uma interface pode continuar aberta sem conseguir concluir o trabalho. O teste precisa descobrir a diferença antes do cliente.
A conexão falha de mais de uma maneira
Há um dado brasileiro que merece entrar nessa discussão. Na TIC Domicílios 2025, 39% dos usuários de internet pelo telefone celular responderam afirmativamente ao indicador sobre o fim do pacote de dados. O percentual foi de 46% nas áreas rurais. Indicador sobre o fim do pacote de dados do Cetic.br.
O levantamento não permite dizer que essas pessoas ficaram sem qualquer acesso à internet: podem existir Wi-Fi, alternativas de conexão ou condições diferentes entre aplicativos. Tampouco mede, por esse indicador, ausência de cobertura de sinal. O problema observado é o esgotamento do pacote, que não deve ser confundido com todas as outras formas de indisponibilidade.
Para uma equipe de produto, a hipótese que vale investigar é se depender continuamente da rede impede parte do público de concluir tarefas. Essa pergunta deve ser levada aos usuários; o percentual nacional não substitui uma pesquisa com o mercado escolhido.
Não basta demonstrar que um aplicativo funciona com o Wi-Fi do escritório. O cliente não leva o escritório junto.
Uma oportunidade de produto, não um concurso de processadores
Considere um exemplo hipotético: um técnico precisa consultar instruções e identificar uma peça durante uma visita. A aplicação poderia manter no aparelho um conjunto autorizado de documentos e oferecer recursos de busca ou análise local. Ao recuperar a conexão, sincronizaria registros e versões.
O possível valor não está em anunciar que a solução usa determinada quantidade de parâmetros. Está em permitir que uma etapa continue quando a consulta remota não está disponível. Para descobrir se existe negócio, seria necessário medir a frequência da dificuldade, seu custo e a qualidade mínima de resposta exigida.
Também seria preciso comparar a proposta com alternativas mais simples. Talvez uma busca local convencional resolva o problema. Talvez documentos melhor organizados sejam suficientes. Se a tarefa não precisa de IA, acrescentá-la não torna a solução mais inovadora; torna a justificativa mais comprida.
O raciocínio permite imaginar produtos para equipes de campo, operações distribuídas e ambientes com conexão intermitente. São hipóteses de investigação, não afirmações de demanda comprovada nem casos de clientes da CRIIA.
Offline não significa atualizado, autorizado ou infalível
O catálogo salvo ontem pode não refletir a alteração de hoje. Uma aplicação pode interpretar corretamente um pedido e ainda não ter como confirmar disponibilidade, preço ou autorização num sistema externo.
Por isso, propomos separar o que o aparelho consegue analisar do que pode efetivamente confirmar. No exemplo de uma venda, registrar a intenção para sincronização posterior é diferente de garantir que o pedido já foi aceito.
Essa separação precisa aparecer para o usuário. Quando a rede voltar, será necessário tratar possíveis conflitos: duas pessoas podem ter alterado o mesmo registro ou a informação local pode ter perdido validade. A equipe deve definir como o sistema sinaliza a pendência e quem decide a correção.
O benefício de continuar operando não deveria depender de fingir que nada ficou pendente.
A economia de nuvem pode reaparecer em outro lugar
Executar modelos localmente desloca parte do trabalho para o equipamento. Na avaliação de um produto, propomos incluir memória, bateria, aquecimento, instalação, manutenção e compatibilidade entre aparelhos, além do custo dos serviços remotos que permanecerem necessários.
A comparação não precisa eleger nuvem ou dispositivo como vencedor universal. Uma arquitetura híbrida pode reservar funções locais para tarefas adequadas e usar serviços externos quando estiverem disponíveis. A decisão depende do trabalho, dos riscos e dos equipamentos reais do público.
Também não cabe presumir que processamento local seja automaticamente mais sustentável. Para investigar essa hipótese, seria necessário definir uma comparação: qual consumo é evitado, qual é acrescentado, que equipamentos são exigidos e por quanto tempo serão utilizados. “Menos chamadas ao servidor” e “menor impacto ambiental total” não são a mesma afirmação.
Uma redução numa linha da conta pode criar uma despesa em outra. A mesma cautela vale para o impacto ambiental.
O teste mais útil começa desligando a conexão
Um experimento pode selecionar uma tarefa limitada e comparar três condições: conexão normal, conexão intermitente e ausência de conexão. A avaliação deve observar o trabalho concluído, os erros, as pendências acumuladas e o esforço para retomar a operação depois.
É importante usar os aparelhos que o público efetivamente possui. Um resultado excelente num dispositivo de demonstração não responde, sozinho, o que acontecerá com os demais. O teste também deve incluir atualização de dados e recuperação de falhas, não apenas o momento em que o modelo apresenta uma resposta.
A proposta da CRIIA reúne pesquisa e construção. Aqui, essa aproximação começa observando uma limitação cotidiana e perguntando se existe uma maneira economicamente viável de reduzi-la.
A rodada da SiMa.ai é o acontecimento desta semana. A oportunidade para outro empreendedor não precisa ter a escala do cheque: pode estar num trabalho específico que continua importante quando a conexão desaparece.
Talvez o recurso mais convincente da próxima startup não seja conversar sobre o futuro. Seja continuar trabalhando quando aparece “sem conexão”.